Entrevistas

Show de Marilyn Manson no Brasil. Setembro-1997

Nenhum grupo religioso protestou nem houve tumulto. A entrada do show da banda norte-americana Marilyn Manson, anteontem à noite no Olympia, só não foi pacata por causa dos adolescentes aglomerados na rua e pela aparição de Zé do Caixão.

Em uma limusine preta e acompanhado por duas "diabetes", José Mojica Marins, o Zé do Caixão, chegou precedido de um carro fúnebre da funerária São Caetano, pouco antes das 21:30. Seu cortejo contava ainda com rapazes usando máscaras de Jason - o psicopata assassino da série cinematográfica "sexta-feira 13". Dentro do Olympia, ele foi ovacionado pelo público de Manson.

Alguns carros da Polícia Militar e 12 comissários de menores (voluntários da Vara da Infância e da Juventude da Lapa) faziam a fiscalização. A fiscalização intensiva foi pedida pela promotora de "Justiça" Luciana Bérgamo Tchorbadjian, 29, e tinha como objetivo impedir a entrada de menores de 16 anos desacompanhados.


Anticristo

Na tarde de anteontem, Marilyn Manson, "o Anticristo do final do século", deu uma entrevista coletiva à imprensa brasileira.

"Qualquer um que tente substituir a idéia de Deus na mente dos adolescentes dos Estados Unidos assusta o país", afirmou, sobre as críticas que recebe na América. Completamente maquiado, já às 14h, ele apareceu vestindo um robe marrom com gola e punhos de plumas. Disse que Trent Reznor, da banda Nine Inch Nails, é apenas "uma gravadora" e que , no estúdio, sua contribuição é ensinar "como usar drogas". O líder da MM contou ainda que está escrevendo um livro sobre sua infância e que gosta de ouvir Pink Floyd, David Bowie e Radiohead. Sobre os rumores de que interpretou o garoto Paul Pfeiffer na minissérie "Anos Incríveis", Manson ironizou: "Participei sim, era a Winnie Cooper, só que tirei os seios".

Disse que não teme a igreja, nem os terroristas e só anda acompanhado de seguranças por causa das mulheres, que não param de atacá-lo. Perguntado sobre o homossexualismo, Manson atacou: "Você pode experimentar muito com o seu corpo, mas é seu coração que determina se você é gay ou não. Se você me chupasse, mas não me amasse, não seria gay".

Nós precisamos de um Marilyn Manson


Por: Erika Palomino


Colunista da Folha de São Paulo:

Marilyn Manson fez um show mais para Superstar do que para Anticristo. A apresentação provoca uma sensação de esquisitice, mas com uma estratégia tão calculada e articulada que não chega exatamente a chocar.

Mesmo com tantas tentativas marketeiras. Por exemplo, quando aparece como um político num palanque em "Antichrist Superstar". Acompanhado pelo público, que grita "hey,hey" de punho erguido, ele rasga páginas da Bíblia. Além disso, apenas proclama alguns palavrões bobos e um "filho da puta", em português. Se Manson é um "poseur", ele atua de modo inteligente e moderno. Seu look e sua movimentação são sua principal arma. Com cinta-liga e meia rasgada usadas com um tapa-sexos que o deixava praticamente nu de costas, coturno e luvas, Manson é produto legítimo do decadentismo dos anos 90.

Ele anda pelo palco como se fosse cair; mexe os braços como um espantalho; as pernas são viradas para dentro. Doentio. Em "Sweet Dreams", cover do Eurythmics, vai para o chão e se rasteja, cantando com voz intensa e quente. Quebra uma garrafa no palco, aparecendo sujo de "sangue". "Eu vou morrer", grita: o efeito cênico é sensacional, como quando ele canta sob máquinas de espuma, tipo neve. O som é agressivo, mas bem delineado, ganhando consistência com bases eletrônicas pré gravadas. Manson só pega a guitarra em "Dried Up, Tied and Dead to the World", bom momento, junto com "The Minute of Decay", "The Beautiful People", "Tourniquet" e "Lunchbox". Seu ótimo show prova que a cultura pop desta década precisa, sim, de um Marilyn Manson.


O teatro de Marilyn Manson:

O cantor deu aos 4 mil fãs que compareceram ao Olympia anteontem o que eles esperavam: visual bizarro, extravagância e provocação

Por: Marcos Filippi


Jornal Da Tarde:

O cantor norte-americano Marilyn Manson e sua banda homônima realmente sabem trabalhar muito bem com marketing. Desde que foi anunciada a vinda do grupo ao Brasil, que fez apresentação única segunda-feira no Olympia, o músico* passou a explorar as "histórias" de que era o anticristo e que faria autofelação e autoflagelação no palco. Com isso, ganhou atenção de jornais, revistas, emissoras de televisão e aproximadamente 4 mil fãs - alguns com os rostos maquiados ao estilo Manson - que foram ao espetáculo e proporcionaram um show à parte. Antes da apresentação começar, ocorreu um verdadeiro espetáculo do lado de fora da casa noturna. Enquanto dezenas de fãs apareciam com rostos pintados e pesados casacos pretos em homenagem ao ídolo, malabaristas contratados pela rádio Brasil 2000 - que patrocinou a apresentação de Manson em São Paulo - cuspiam fogo no meio do público. Mas o principal momento deste espetáculo improvisado ocorreu quando um carro funerário abriu caminho para uma limusine. Quem esperava ver Marilyn Manson saindo do luxuoso carro acabou se deparando com o cineasta Zé do Caixão e duas "diabetes".

O "show" do lado de fora da casa só não foi completo porque a prometida manifestação supostamente organizada por fanáticos religiosos contra a presença de Manson na cidade não ocorreu. Isso acabou frustrando alguns fãs que foram ao Olympia preparados para a "guerra santa". O fã que se identificou apenas pelo nome Antônio chegou a levar ao espetáculo um cartaz com o retrato da princesa Diana acrescido de um detalhe: Lady Di, com os olhos pintados, parecia um clone Manson. "É para chocar mesmo", justificou-se. Apesar de tudo, no show de Marilyn Manson nem polícia, nem departamento médico instalado no Olympia tiveram muito trabalho. A PM registrou 5 casos de briga e os médicos atenderam 40 fãs com falta de ar e pequenas escoriações.

Por: Marcos Filippi


Crítica Do Show:

Marilyn Manson deu ao público aquilo que todos desejavam: circo. Quem foi ao Olympia queria ver as extravagâncias do ídolo em cima do palco. E, nesse ponto, o show foi fantástico. Ao som de Dried Up, Tied and Dead to the World** muita fumaça e luz, Marilyn Manson entrou no palco vestido com espartilho, uma sunga minúscula e um colete de pele. Zim Zum (guitarra), Twiggy Ramirez (baixo), Ginger Fish (bateria) e Madonna Wayne Gacy (teclados) também vieram com seus modelitos andróginos. No final de Sweet Dreams, Manson simulou - ou não? - um corte em seu peito. Mas foi em Antichrist Superstar que o cantor mostrou mesmo sua irreverência. Em cima de um púlpito e vestido de religioso, Manson rasgou uma Bíblia. Musicalmente, o show teve bons momentos - como em Tourniquet e The Beautiful People - e outros entediantes. Valeu pelo circo.

Por: Marcos Filippi